NARCÍSICOS

RITUAIS

O ato de se arrumar é mais do que uma preparação externa, uma expressão do eu interior, um momento íntimo onde nos conectamos com nós mesmos.

Neste ensaio, honramos o ato de se arrumar, onde o ordinário se eleva ao extraordinário e o cotidiano se transforma em poesia. Capturamos a essência desse ritual, focando nos delicados movimentos da mulher enquanto se prepara, revelando a beleza que reside na simplicidade de cada gesto: o abotoamento meticuloso, a escolha do sapato, o movimento fluido das mãos ajustando cada elemento. É nesse ritual que nos revelamos e abraçamos a nossa individualidade encontramos a nossa essência.

Para a donzela em flor, um banheiro não

simplesmente um cômodo

Mas um templo; santuário à própria delica-

deza e altar privado

Onde de bom grado ela pode oferecer sua

dor, e laurear-se sacrifício

Para um divino arcano– espíritos de pétala,

espíritos de pérola,

Acima de tudo do diáfano retrato e do esfin-

gico espelho d'água

Através do qual eles podem agraciar uma

fiel, e da carne ao símbolo elevá-la

Lóri se perfumava e essa era uma das suas imita-ções do mundo, ela que tanto procurava aprender a vida - com o perfume, de algum modo intensifi-cava o que quer que ela era e por isso não podia usar perfumes que a contradiziam: perfumar-se era de uma sabedoria instintiva, vinda de milênios de mulheres aparentemente passivas aprendendo, e, como toda arte, exigia que ela tivesse um mínimo de conhecimento de si própria: usava um perfume levemente sufocante, gostoso como húmus, como se a cabeça deitada, esmagasse húmus, cujo nome não dizia a nenhuma de suas colegas-professoras: porque ele era seu, era ela, já que para Lóri perfumar-se era um ato secreto e quase religioso

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Eu sempre sonho com isso: Eu me vejo em pé, mui-

to rígida, e eu estou coberta de joias e roupões luxuosos. Eu uso uma coroa. Não acha que algum dia me tornarei uma mulher? Quero ser estilhaçada em pedaços. Ainda assim, ao mesmo tempo, eu sei que faço tudo para criar minha própria inacessibilidade. Eu uso roupas estranhas que estranham as pessoas. E então eu as odeio por falharem em me alcançar. Eu crio a lenda, eu sei. Não é minha culpa. Quando eu acordo eu não olho para o tempo. Eu olho para o humor em que estou. E então me visto, e eu vivo. É difícil de explicar. Sinto que venho de muito longe:



Quando me surpreendo ao espelho não me assusto

porque me ache feia ou bonita. É que me descubro

de outra qualidade. Depois de não me ver há muito

quase esqueço que sou humana, esqueço meu passado sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva. Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.

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